Alex
Buueno
relato
10-09-2022
Artista e DJ
Todo o meu rolê, tanto com a música quanto no cenário underground, começou a ter um sentido que eu nem sabia com situações lá da infância. Eu sempre fui muito rouco, desde criança, e sempre foi um ponto muito questionado pelas pessoas, e intrinsecamente isso me gerou muita dificuldade para falar. Então a expressão pela fala, pra mim, sempre foi muito reprimida por causa disso. Lá na infância também, eu morava no interior com meus avós, e a gente tinha pouco contato com uma cultura que não fosse a caipira.
Mas a lembrança que eu tenho, do início do meu interesse na música eletrônica, foi do radinho de pilha do meu avô. Ele ligava todo dia de manhã, pra ouvir as notícias da rádio da cidade. Eu chegava do colégio e já ligava o radinho porque eu queria escutar Venga Boys e Eurodance, que tocavam muito na época.
A partir daí começou a me gerar um interesse nessa música, que tinha uma estética humana animada, mas com uma base eletrônica muito forte. As referências que eu tinha vinham de dentro da minha família e do meu convívio social, que eram do meu bairro, e não existia muito disso. Mas desde aquela época, eu por si só, já buscava sonoridades que fugiam do comum. E era uma coisa tão minha, que não pertencia ao universo em que eu estava. De certa forma, eu conseguia também explorar a minha sexualidade, que eu ainda não entendia por eu ser criança. Mas sempre tem aquela coisa, sempre te chamam de "bicha" antes de você saber que você é bicha. E pra mim foi assim, eu lembro que a primeira vez que isso aconteceu, eu tinha 7 anos, e tinha ido comprar pão na padaria, quando um cara olhou para mim do nada e disse: "essa criança é viadinha". Esse foi o primeiro contato que eu tive de me entender gay, sem nem se entender como pessoa primeiro. Já fui rotulado antes mesmo de ter as minhas bases como pessoa.
Na adolescência, comecei a frequentar algumas baladas que os vileiros frequentavam, como a Sistema X, Milenium, Planeta Ibiza, que tocavam muito Eurodance com uma mistura gostosa de eletrofunk. Quando eu tinha 16/17 anos eu fui pro meu primeiro rolê de eletrônico, que foi uma rave de psytrance. Eu fiquei chocado, era uma música tão enérgica e ela permitia que você sentisse o que estava sentindo, da forma como você queria sentir.
O primeiro rolê mais underground que eu conheci foi na Zeitgeist, e eu fiquei muito chocado, porque tinha umas gatas muito estilosas. A partir dali, eu comecei a me interessar mais pela cena clubber e pelo movimento underground como um todo. Fui nutrindo um sentimento pela música que aconteceu de forma muito natural, e eu encontrei um lugar de acolhimento.
Depois que eu terminei a faculdade, surgiu a oportunidade de fazer um curso de DJ e produção musical no lugar em que eu trabalhava. Comecei a tocar e as primeiras oportunidades quem me deu foi a cena underground. Uma delas foi a Flagra, uma festa em que eu não participava só tocando, mas também produzindo conteúdo pras redes sociais, o que foi muito importante pra mim, porque começou a me dar uma outra visão da cena, de estar do outro lado, não só como artista, mas com o viés da produção. Isso foi se alavancando, até que veio a pandemia, cheia de incertezas e nenhuma perspectiva de futuro. Eu me perguntava como me manter ativo enquanto integrante desse cenário, sem nenhum incentivo e apoio. Conversando com meus amigos Nicole e Yago, começamos a produzir algumas lives pelo coletivo Ciclo, que começaram a nos dar mais visibilidade, o que nos possibilitou fazer nosso primeiro evento pós-pandemia. Desde então, nos tornamos um um núcleo muito forte dentro da cena underground de Curitiba.
O que eu acho muito importante é nunca se acomodar e entender quem são as pessoas que queremos como público, e quem queremos dentro do coletivo. Porque uma das nossas dores enquanto artista em Curitiba, é de sempre estar tudo fechado em uma panelinha de playboy, e se você não pertence a essa panelinha você não toca e não é ninguém na noite. A Ciclo nasceu com esse desejo, da possibilidade de apresentar novos artistas de forma independente pro cenário curitibano.
Foi nesse ambiente do underground que eu tive a liberdade pra me entender como artista. Não é fácil levar essa carreira junto com outro trabalho e conciliar com outras coisas da vida. Mas eu faço porque consigo colocar todos os meus sentimentos ali. Além da questão da minha voz, outra coisa que me fez me suprimir muito é por ser gay, por estar numa família totalmente cristã e evangélica, sem nenhuma referência de entender que ser gay não é errado. A música ocupa esse lugar pra mim, de expressar gritos que foram suprimidos durante muito tempo.
Eu vejo que a sociedade oprime muito, então o universo clubber existe também pra um certo escapismo. Mas pra mim, o que difere realmente um frequentador de festa mais assíduo pra uma pessoa clubber, é realmente o espaço que a pessoa dá disso na vida dela. Então o clubber é uma pessoa que vai usar da sua personalidade, da forma como ela se veste e se porta pra ter acolhimento, pertencimento e se sentir em plenitude.
Isso porque o contexto underground não é voltado a exaltar corpos que já estão em evidência sempre. Ele é voltado justamente a dar voz pra quem está na marginalidade, pra quem é julgada por ser simplesmente quem é. É nisso que eu acho que o underground ganha, do acolhimento que ele traz e a liberdade de expressão da pessoa ser quem ela quiser. Ali você pode exercer esse escapismo em paz.
É ali que a pessoa se sente acolhida, é um contexto de escapismo justamente pra escapar de uma sociedade violenta, da vivência do dia a dia. É sobre fornecer um acolhimento, uma liberdade de expressão que a sociedade não dá no cotidiano. É o espaço para as pessoas que gostam de uma cultura vista como errada por muitos na sociedade. E se lá fora ela não consegue expressar isso, aqui dentro ela consegue. É o oposto ao que a gente vive no dia a dia.
Eu acho bem difícil pensar no cenário underground sem pensar em moda. A moda entra muito no cenário por ele trazer esse viés de aceitação e acolhimento e liberdade. A moda é a ferramenta que possibilita dar o seu primeiro cartão de visita sobre sua liberdade de se expressar como quer. E quando você olha uma pessoa que está montada, com um look mais elaborado, você vê muita personalidade já de cara, sem a pessoa nem abrir a boca.
A moda em si no underground ela nasce pequena, ela nasce no indivíduo, que está tentando passar uma mensagem através de um espaço em que ele tem liberdade pra isso. E esse espaço do underground é tão grande que transcende o falar, o dançar, transcende o corpo. É uma união de tudo isso com a possibilidade da sua própria estética, que também é a sua voz.
Enquanto DJ, estar nesse cenário significa e representa muita coisa. Antes de entrar, e isso em qualquer festa, tocando para uma ou para mil pessoas, toda vez me dá um frio na barriga, uma ansiedade e nervosismo, por que é muita responsabilidade. Por muitos anos eu fui pista, e eu acho que o meu compromisso acima de qualquer outra coisa com as minhas apresentações é entreter aquele público, dando um set que eu gostaria de dançar se eu estivesse ali. Isso torna cada set muito único, porque é ali que toda essa bagagem histórica entra, e no fim é uma forma de expressão, de expurgo e de manifestação não falada.
O sentimento mais bonito que eu sinto toda vez que eu me apresento é o de realização. Durante o set é muito raro ele se apresentar, às vezes em frações de 2,3 segundos. Geralmente ele vem depois. Mas independente de onde ele se apresenta, ele me preenche, ele me enche e me inunda.