Umatheusa
relato
05-09-2022
artista, performer e transformista
Bem, o meu nome é Matheus, eu tenho 25 anos, e sou nascido e criado aqui na cidade de Curitiba. Eu gosto de sempre começar a minha história pelo meu nome. Todo mundo me chama de Deusa agora, mas esse nome é uma abreviação, um apelido carinhoso do UmaTheusa. E UmaTheusa é um trocadilho do meu nome, que é Matheus com “th”, e a gente consegue essa sonoridade de “D” por conta do inglês. Eu entendo esse nome como uma sátira do que eu vivi na minha infância, porque eu nasci e fui criado dentro de um contexto super religioso, em uma das igrejas mais conservadoras do Brasil, a Congregação Cristã no Brasil. Eu sempre fui uma criança muito devota, e que não entendia muito o contexto que estava inserida, comparando com o que acontecia fora da igreja, então eu era super alienado e acreditava muito em tudo que era me dito lá dentro.
E sobre a sexualidade, que apesar de eu aprender na escola nas aulas de ciência e biologia, era algo que minha mente filtrava por toda essa alienação. Eu acreditava muito que a questão da sexualidade era uma escolha, por exemplo. E foi justamente esse entendimento da minha sexualidade na minha adolescência que trouxe essa quebra, e aí meu mundo meio que caiu. Depois disso, eu perdi todas as relações com a minha família, que era totalmente evangélica, e me distanciei. Eu passei de ser o sobrinho e neto mais queridinho da família por ser muito devoto, a ser uma pessoa extremamente desconhecida.
A minha infância foi privada de televisão, de muito acesso à cultura, de ouvir música, porque além de eu estar inserido nesse contexto religioso, eu tinha um pai extremamente tóxico. Eu sinto que quando eu tive essa quebra, eu comecei a sair pro mundo com uma fome muito grande de buscar cultura, de buscar referências, e comecei a consumir muita música.
Conheci RuPaul assistindo Netflix, e aí a minha expressão de gênero começou a ser totalmente andrógina. Comecei a usar muito salto alto, o que chamou uma roupa mais dita como “feminina”, e aí cheguei na maquiagem. Em primeiro momento a maquiagem chegou em mim como uma forma de esconder o que eu entendia como imperfeições, porque eu sempre tive muito problema com espinhas e com manchas na pele, então a base vinha pra ajudar a me sentir mais bonita. Com a descoberta da minha sexualidade veio também o meu entendimento como pessoa preta, porque dentro da igreja não tinha essa discussão, então deixei meu cabelo crescer. Eu tinha um black power enorme, juntava isso com maquiagem e no final das contas era uma montação. Até que chegou o momento que mesmo eu não considerando que o que eu fazia era drag, eu resolvi mudar o user do meu Instagram pra "UmaTheusa", que eu amei, porque faz essa sátira com a minha história, com esse "Deus", ao mesmo tempo que traz feminilidade pra esse nome, que é uma quebra da imagem de Deus como homem do evangelho.
De início eu frequentava as baladas de pop comercial e aí conheci outras drags, aprendi a tocar com uma amiga, e depois de um mês eu estava tocando numa balada pop. Enquanto eu fazia drag, eu não me via contando a minha história com nenhuma daquelas abordagens que eu tinha referência. Seja dançando, atuando, recitando um poema, ou fazendo lipsync. Eu não me reconhecia em nenhum desses lugares, e não me via fazendo aquilo. E quando cheguei numa festa de música eletrônica, que eu vi uma drag performando eu entendi que talvez aquele fosse um lugar para mim.
Nessa época eu tinha uma aparência totalmente comercial e humana. Eu trazia essa ilusão e feminilidade pro meu rosto com as ferramentas que a gente tem dentro da arte drag. Mas ao mesmo tempo em que eu comecei a me relacionar com artistas transformistas que estavam no cenário da música eletrônica, e que tinham essa pegada clubber, com o uso de outras cores, formas, texturas, não só com aparência humana, mas com outros seres, eu comecei a trazer isso pra mim.
Eu sinto que esse ambiente acaba trazendo mais referências e possibilidades dentro do transformismo. Ali eu comecei a explorar mais esse lado da Deusa que não era tão humano e tão feminino, e cheguei aonde eu estou agora, em que já me montei de alien, de robô, pós humano, e coisas que eu não sei nem rotular. Foi assim que eu cheguei no underground, foi assim que eu cheguei na Deusa que eu sou agora.
A gente como performer, sente uma certa dificuldade de atuar no âmbito underground, porque assim como todos empregos, a performer está nesse lugar da marginalização e da falta de valorização. Existe uma diferença entre as festas comerciais grandes e as festas alternativas underground, e eu acho que o que muda isso é justamente essa proposta: enquanto as festas comerciais visam o lucro e a visibilidade da festa e dos DJs, as festas do ambiente underground tem uma preocupação de trazer ações sociais, como as listas de inclusão, para que todas as pessoas tenham acesso. As festas underground também estão buscando um resgate da história da música eletrônica que é algo que veio da cultura preta e das pessoas que estão na margem.
Quem tem o protagonismo da música eletrônica são pessoas brancas, e homens brancos principalmente. E algumas festas dentro do ambiente underground/alternativo tentam estar nessa movimentação de fazer um resgate dessa história. A gente como performer, mesmo dentro do ambiente underground, ainda sente essa falta de valorização do nosso trabalho por que o público sempre foi muito educado a enxergar o DJ como artista principal da festa. E se a gente traz isso da forma correta e valoriza as performances, a gente cria no final das contas uma experiência muito mais inédita e extraordinária. A música aguça um dos nossos sentidos, que é a audição. E a performance traz a questão do visual, do sensorial, se é uma performance interativa do tato. Por que não a gente proporcionar essa experiência pro público?
Pra mim, a performer é uma pessoa que recebe um estímulo, que é a música e com esse estímulo, sonorização e trilha, conta uma história para o público. Seja ela com um ponto final, seja um capítulo, seja um parágrafo dessa história. Pra mim, eu sempre vou dizer: a performer conta uma história.
Na minha visão, o underground é o contraste do comercial. Ao contrário do comercial, o underground é o marginal, é o que se constrói nas ruínas. É o novo, e o que se cria literalmente "embaixo do chão”.
Essa profundidade é muito disso, da junção de corpos marginalizados em espaços não comerciais, em busca de algo que não não vai no mesmo caminho do mainstream. É o que tenho que explicar pra minha mãe, dentro do meu trabalho, dentro do ambiente formal. O underground é essa outra forma de contar a história.
O underground grita muito sobre as dores. É uma subversão, por ser um ambiente acolhedor, em que fora dele, as pessoas não conseguem ser quem são ou quem gostariam de ser e se vestir.
É esse convite às pessoas fazerem o que elas tem vontade. É gritar sobre suas dores e a comemorar as suas estranhezas também. Tudo aquilo que é ditado pra gente como imperfeito a gente, nesse ambiente, unido, entende que cada um é de um jeito e cada um deveria poder se expressar da forma como gosta e sente.
Quando eu comecei a frequentar as festas e entendi minha sexualidade, eu senti que toda a minha forma de me comunicar, falando de vestimenta, tinha sido imposta. Então eu usava o que me falavam que era o certo pra usar. E no ambiente underground, que convida as pessoas a serem elas mesmas, as pessoas acabam entrando nessa busca de quem elas são. A moda é uma das ferramentas para se encontrarem. O que elas querem comunicar pras outras pessoas? Como elas querem que as pessoas leiam ela através da vestimenta?
E eu acredito muito que a moda é uma ferramenta de autoconhecimento, de expressão e de reafirmação de uma nova proposta de si, que está diretamente ligada com o undeground.
E uma última coisa sobre a minha arte, é que também gosto de traduzir como uma arte do estranhamento. Então quando eu falo que gosto de trazer o pós humano, é justamente pra distanciar de tudo que as pessoas estão acostumadas a ver. Eu acredito que o estranhamento, e o atrito, trazem dúvidas e questionamentos. E é justamente o que a gente quer, que as pessoas perguntem: "Por que você faz isso?". No ambiente underground tem muito disso da arte do estranho, porque é isso que abre as possibilidades de diálogo, de conversa e de discussão.